26 de junho de 2015

Os livros em que você pode encontrar Westeros e Essos (além das próprias Crônicas)


Oi pessoal! Fim de temporada em Game of Thrones, todo mundo esperando Os Ventos do Inverno há séculos (YAY! JÁ TEMOS OS PRIMEIROS CAPÍTULOS TRADUZIDOS!).... Onde mais a gente pode encontrar nosso querido universo, criado por George R. R. Martin? Felizmente, existe muito material, muita spin-off, muito extra disso e daquilo. Dá pra se segurar até os próximos lançamentos.


O Príncipe de Westeros e Outras Histórias

Lançado há pouco tempo pela editora Saída de Emergência, é uma coletânea de contos dos personagens cinzas. Martin já nos contou em várias entrevistas que não gosta de personagens extremamente bons ou maus, e sim daqueles totalmente humanos. Com linhas tortas em seu caráter, com luz e trevas dentro de si. Todas essas histórias são sobre canalhas.

Elas são inéditas e foram escritas por Neil Gaiman, Scott Lynch, Patrick Rothfuss, Gillian Flynn, e muitos outros além do próprio Martin. O Príncipe de Westeros se passa 80 anos antes da história de Dunk e Egg (de O Cavaleiro dos Sete Reinos), e conta sobre Daemon Targaryen. (Americanas/Saraiva/Livraria Cultura)

PS: Eu estou amando esse livro! Conheci o Neil Gaiman e já me apaixonei pelo trabalho dele. Assim que eu acabar O Príncipe de Westeros vou trazer como sempre um review massa pra vocês!


A Feast Of Ice And Fire (e From the Sands of Dorne)

Quem nunca ficou curioso para saber o gosto da torta de pombo do fatídico dia da morte de Joffrey?
Já imaginou como seria participar de um banquete em Winterfell? Já quis comer um bolo de limão com Sansa Stark, devorar uma torta de porco com a Patrulha da Noite, ou se saciar de dedos-de-mel com Daenerys Targaryen? Não pense que você é louco, pois maior do que a vontade dos fãs de lutar as batalhas épicas, é de provar as comidas épicas. Afinal, vinho cai muito melhor no estômago do que uma facada.

Duas chefs, do blog Inn at the Crossroads, trouxeram tudo que a gente lia pra vida real. Ou, tudo que a gente via na série também! No próprio blog elas já postam muitas receitas do mundo de gelo e fogo, e aí veio o projeto do livro. As imagens são lindas, é tudo separado por região — comidas de King's Landing, Winterfell, da Muralha, e etc — e tem uma sacada genial, que vai agradar gregos e troianos: uma versão medieval e outra mais moderna. Se você quer fazer a torta de pombos com pombos mesmo, go ahead, porém se achar que é muito exagerado, dá pra trocar por outra coisa.

O ebook que saiu posteriormente, From the Sands of Dorne segue a mesma linha, mas traz a culinária mais semelhante a nossa mediterrânea, a de Dorne. Muita pimenta e especiarias, e ainda uma receita de Os Ventos do Inverno! Achei o ebook na(o) Amazon/Google Play, e o livro principal na Saraiva/Amazon!

Único problema: não existe, até agora, uma versão em português. Porém, para quem tem familiaridade com a língua inglesa, ou mesmo acredita que não existem barreiras que um bom dicionário —  ou algum amigo fiel que manja —  não possam vencer, uma outra dificuldade em função da primeira, é o sistema de medidas. Os ingredientes são medidos em cups, que você pode comprar em lojinhas especializadas ou converter para gramas. Se ajudar, tem na Amazon a versão em espanhol.


O Cavaleiro dos Sete Reinos

Está na minha estante, e mal posso esperar pra começar. Pelo que fiquei sabendo, se trata da história de Dunk e Egg (ou Ovo. É um apelido para Aegon, com duplo sentido, no caso!). The Tales of Dunk & Egg, originalmente, eram uma série de novellas sobre esses dois personagens, que foi publicada ao longo dos anos em várias antologias diferentes. A editora LeYa, aqui no Brasil, reuniu todas elas no livro O Cavaleiro dos Sete Reinos.

Tudo acontece 200 anos depois da Conquista, no auge da dinastia Targaryen. Os tempos são relativamente pacíficos no reinado de Daeron; e Dunk, um garoto da Baixada das Pulgas, tem a chance de se tornar o escudeiro de um cavaleiro andante e deixar sua miséria para trás. Depois de adulto, o cavaleiro de Dunk morre, e ele decide tomar seu lugar e participar do Torneio da Campina de Vaufreixo.

É lá que Dunk vai conhecer Egg, um menino de de dez anos e cabeça raspada, que se tornará seu escudeiro. Egg é muito mais do que parece, e suas viagens por Westeros (e também sua amizade) poderão acarretar fatos determinantes na Guerra dos Tronos, muitos anos depois.

É realmente muito bom vivenciar um outro período da história de Westeros, e analisar o que acontece agora por esse prisma. Durante a leitura das Crônicas temos diversas referências aos contos de Dunk e Egg, e vai ser muito legal percebê-las! Se você quiser saber quais são, dá uma olhada nesse review do site Game Of Thrones BR. (Saraiva/Submarino/Americanas)


A Filosofia de Tyrion Lannister

Uma reunião das frases mais célebres de Tyrion; nosso meio homem com a inteligência de três inteiros. É realmente um livro de frases, você não vai achar nenhum conto, análise profunda sobre a personagem ou perfil a mais. É só uma reunião de citações para os fãs, separada por assunto (sobre ser um anão, sobre a família, sobre o romance, sobre a realeza, etc). É capa dura, caprichado e cheio de ilustrações bonitinhas. Aqui você não vai encontrar nada novo, talvez só relembrar fatos acontecidos anteriormente. Tem frases de todos os cinco livros lançados até agora, então, pode ser que seja um spoiler para alguns, apesar de estar tudo nas entrelinhas. Ótimo para quem é colecionador, e/ou fã ferrenho do Tyrion, e também para dar de presente. Porém, se é um gostinho a mais de Westeros que você quer, nem pense nesse livro! (Submarino/Americanas/Saraiva)


Living Language Dothraki: Games of Thrones

Isso mesmo que você está pensando: é possível aprender dothraki. Além de criar o idioma para a série, David J. Peterson fez um curso sobre ele. O processo é semelhante ao de aprender qualquer língua; tem a sessão de gramática, expressões, vocábulo, diálogos, e pronúncia. O livro vem com um CD pra facilitar as coisas, e além disso ainda tem o aplicativo para celular, e um extensivo no site. De novo temos aquele probleminha de que está tudo em inglês. Você pode achar no próprio site, na Amazon, no Submarino, nas Americanas, e na Saraiva.


O Mundo de Gelo e Fogo

É um compilado de lendas, histórias, mapas, e trabalhos de vários meistres reunidos por Meistre Yandel, para presentear o rei Tommen Baratheon. O que tem de beleza, esse livro tem de informações úteis. George R. R. Martin, em conjunto com seus amigos Elio M. Garcia Jr e Linda Antonsson do site Westeros, nos deram as bases sólidas para a história do reino de gelo e fogo. Todos os acontecimentos citados durante As Crônicas são documentados, e na medida do possível, esclarecidos. Assim como nossos livros de História, que nos permitem analisar melhor o presente a partir dos acontecimentos do passado, O Mundo de Gelo e Fogo vai trazer sentido para muitos traços do povo de Westeros, Essos, e outras terras "desconhecidas". E também como nos nossos livros de História, quanto mais antiga, mais nebulosa é essa informação.

Uma coisa muito interessante é que a maioria das coisas não é totalmente absoluta, uma vez que Meistre Yandel encontrou vários estudos diferentes e muitas vezes até contraditórios sobre um mesmo período. Isso deixa lacunas que Martin pode preencher depois (ou nos largar à míngua no mistério mesmo, aquele velho enrolador!).

Descubra sobre A Era da Aurora, A Chegada dos Primeiros Homens, A Era dos Heróis, A Longa Noite, A Ascensão de Valíria e sua Perdição. Dentro estão acontecimentos incríveis, como Brandon, O Construtor na Muralha; Nymeria chegando em Dorne, A Dança dos Dragões, Os Filhos da Floresta se encontrando com Os Primeiros Homens... Enfim, é muita história. Eu sempre soube que a Velha Ama estava certa! (Submarino/Americanas/Saraiva)


Game Of Thrones - Um Guia Pop-Up de Westeros

Esse é bem semelhante ao guia pop-up de Harry Potter. Um livro muito bonito, que pode até parecer um brinquedo, mas tenham muito cuidado, ok? Vocês vão ficar realmente tristes se o de vocês estragar, como o meu. Ah, e cuidado com os irmãos menores! 

A proposta do livro é trazer os cenários dos livros e da série em dobraduras, e, como é um guia, as informações sobre eles. Temos Winterfell, Porto Real, a Muralha, e outros. (Livraria Cultura/Saraiva)


Game Of Thrones - Por Dentro da Série da HBO

Dá para imaginar, né? Centenas de fotos da produção dos sets e figurinos, as histórias dos bastidores, entrevistas com o elenco e membros da equipe... É um guia visual das duas primeiras temporadas (de luxo, encadernado e lindo, como O Mundo de Gelo e Fogo). Se você acompanha a série, ou mesmo se tem curiosidade em saber como eles conseguiram adaptar o conteúdo dos livros, é uma boa pedida. Ainda tem um prefácio inédito do Martin, e análises sobre as personagens (Saraiva/Submarino/Livraria Cultura.)

Achei esse link em que você pode ler algumas das páginas do livro em inglês. Em português mesmo, só comprando! 

6 de junho de 2015

Já ouviu falar de Once (Apenas Uma Vez)?


Oi gente! Estão aproveitando o feriado? Meus planos quase todos para essa semana foram frustrados — envolviam muitas palestras da Semana da Mata Atlântica aqui em Ubatuba, que de todas só consegui ver uma: um senhor muito legal contando a história de um motim em que ele esteve na Ilha Anchieta! —, e eu resolvi dar uma boa utilidade pro meu Netflix, e rever Once (Apenas Uma Vez aqui no Brasil). Antes eu não tinha conseguido ver o final do filme, e morrendo de sono pelo horário, não prestei a devida atenção nas fantásticas singularidades que fazem toda a diferença na história.

Bem, apesar de ser classificado como musical, em momento algum você verá semelhança com as superproduções hollywoodianas, em que as pessoas começam a pular, dançar, e cantar sem mais nem menos, e um grupo totalmente aleatório de pessoas reproduz uma brilhante coreografia ensaiada umas quinhentas vezes. Ou mesmo no clássico exemplo das animações infantis que eu amo, com duetos dramáticos no lugar de alguns diálogos. Aliás, de superprodução, Once não tem nada. Tudo foi feito dentro do pequeníssimo (será? Quanta coisa eu poderia fazer com ele!) orçamento de 130 mil euros.


Ambientado em Dublin, é tudo tão singelo e natural que parece que estamos vendo a história de pessoas reais. Não tem aquele romance forçado, ou mesmo fantasioso, que mesmo sendo lindo não costumamos ver por aí em todas as esquinas. Aqui o que faz toda a diferença é a música, e o que ela trouxe pros personagens, que aliás, não tem nem mesmo nome. O engraçado é que eu só percebi isso nos créditos, mas não me sinto tão distraída: a maioria das pessoas que assistiu me disse a mesma coisa!

O sentimento entre o "casal" de protagonistas é uma incógnita. A gente não sabe se tudo foi uma boa amizade, uma afinidade, ou um romance oprimido por uma necessidade da vida urgente. Ela,  que é interpretada por Markéta Irglová, é uma imigrante tcheca que vive num prédio de outros imigrantes, e sustenta sua mãe e sua filha pequena com as flores que vende na rua e as faxinas que faz ocasionalmente. Apesar das dificuldades, ela deu um jeitinho de poder praticar sua música, com o piano da loja de instrumentos, que o dono a deixa tocar nos momentos vagos. Já ele, interpretado pelo Glen Hansard, é um músico de rua, ajuda o pai no seu negócio de conserto de aspiradores de pó. Um dia, aquele acaso no qual não acreditamos fez com que eles se conhecessem, e daí em diante houve um novo sopro de esperança. Começam a compor juntos, e a aspirar a gravação dessas músicas, um sempre trazendo confiança pro outro e um entusiasmo pros projetos.


A trilha sonora é MARAVILHOSA! As músicas dos personagens, que foram realmente compostas por Markéta e Glen na vida real, vão aparecendo a medida que surgem ensaios, alguma apresentação um pro outro — quem disse que haverão plateias lotadas como nos sonhos de rock stars genéricos? —, ou coisa do tipo. Aliás, Falling Slowly, a primeira música que eles cantam juntos foi a vencedora do Oscar de melhor canção em 2007. Markéta e Glen tem uma banda juntos, The Swell Season. Escutem aí embaixo a trilha, sério... Vocês vão amar.


Não é um filme pra assistir esperando finais felizes mirabolantes, ou mesmo um romance arrebatador. Once não se trata disso. É apenas uma história mostrando como a música pode unir vidas, dar esperança, e abrir horizontes. E o contrário também é válido! Os dois aprendem a ter essa esperança, a ter essa união, e a buscar novos caminhos por ela. Mesmo quando o peso do cotidiano empurra um violão pra longe (ou sei lá, um piano!), vale à pena o sacrifício de não desistir e continuar tocando. Se as direções do cara e da moça serão as mesmas, nós não sabemos. Só o que se sabe é que alguma boa mudança vai ser deixada de tudo isso. Recomendo Once!
15 de maio de 2015

Borbolete-se com O Céu É Logo Ali, de Lilian Farias


Pense nas borboletas e em tudo que elas significam. Biologicamente, são insetos da ordem Lepidoptera classificados nas superfamílias Hesperioidea e Papilionoidea, que constituem o grupo informal Rhopalocera, fazendo do holometabolismo sua maneira de vida. O que tudo isso significaria pra nós, no simbolismo e no emocional? Toda essa metamorfose, da larva ao casulo, do casulo às asas nos diz muito sobre transformar e se libertar. Quantas cores, quantas formas, quantos perfumes poderíamos contar?

Encare o livro de Lilian como uma borboleta, assim como suas personagens (incluindo você mesmo). Sim, pois em O Céu É Logo Ali, leitor vira personagem, e personagem vira leitor. Pense no primeiro voo da borboleta que acaba de sair do tormento de seu casulo, e tem uma nova perspectiva. Ela é leve, livre, bela, e cheia de sonhos. Não é mais aquela lagarta limitada pela gravidade, que devora folhas sem parar, nem mesmo imaginando que poderia conquistar os céus. Duas mulheres, ligadas de forma proporcionalmente inversa, descobrem sua borboleta. Clarice e Dolores: a moça sem medos e a mulher reclusa.

''Não dá para morrer agora: preciso domar um cavalo; tocar piano para uma plateia lotada; viajar para o outro lado do mundo; ser entrevistada por Marília Gabriela; escrever um livro. Disseram que eu poderia ser feliz! Não dá para morrer agora: preciso catalogar todas as espécies de borboletas existentes; matar um dragão; inventar uma receita inusitada; ser dançarina; posar para fotos de família. Disseram que eu podia ser feliz! Não dá para morrer agora: preciso compor a minha música; correr em direção ao além; achar o pote de ouro do arco-íris, morar em uma casa de biscoitos; ser rainha de alguma coisa; escrever poesias. Disseram que eu podia ser feliz! Não dá para morrer agora: preciso nadar no rio; nadar no mar; quebrar o braço; correr pelada; morrer de amores; ser amada; contar histórias. Disseram que eu podia ser feliz!''

Com muita poesia e sensibilidade, vamos descobrindo pouco a pouco o que essas duas tem para nos mostrar. Clarice está na chamada flor da idade, a época em que temos a melhor ideia do mundo. Aquele momento em que a vida parece estar se encaminhando pro que realmente vai ser, mas ao mesmo tempo ainda temos aquela sensação de que não estamos realmente lá. De que podemos desistir, dar meia volta e começar tudo de novo. Mesmo assim, Clarice estava feliz demais pra pensar em mudar qualquer coisa. Tudo parecia perfeito: era uma moça com bons conhecimentos, uma família e um noivo que a amam. E nem mesmo o espelho podia culpar... Era tão linda que as pessoas ficavam impressionadas.

"O medo é um fardo pesado e jamais poderia alcançá-la. Que poderia ser uma lembrança para não ficar cega pela coragem e perder-se nas montanhas do desequilíbrio!"

Já Dolores, sem ter nenhuma dessas coisas, representa a felicidade nos mínimos detalhes. Ela, já adulta, não conhece muito bem o amor. Não é lá nenhuma beldade, apesar de os outros personagens a enxergarem com certa beleza. Financeiramente e  profissionalmente falando, Dolores também não se saiu bem pros padrões que nossos pais/avós utilizariam. Nada de "direito" ou "medicina". Dolores trabalhava em um bar, e seu amigo mais peculiar era um bêbado que tinha uma grande admiração por ela. Poucas pessoas tinham o prazer de conhecer Dolores, e de admirá-la. Ela mesma se anulava, ela mesma se escondia. Montou uma barreira tão forte e por tanto tempo em torno de si que se esqueceu de que ela estava lá.

''Será que eu fechei todas as janelas para o mundo? - murmurou Dolores. - O que está acontecendo? O que eu fiz comigo? (...)
Uma mulher não se acaba. Não entrega as cartas antes do fim do jogo. Ela tinha brasa de desejo, só não sabia onde escondeu. Agora que as águas ascenderam a paixão da vida, a festa era certa. As portas foram abertas. As verdades rasgadas e queimadas. A dança da mulher subversiva deu as caras.''

Um dia desses, tudo muda. Dolores, que estava escondida, se sente finalmente parte de algo, por ter um contato com o amor que engrandeceu o seu ser. E Clarice, por uma peça do destino, acaba perdendo tudo que lhe era caro. É que nesse mundo que conhecemos, tudo tem que ter um equilíbrio. Um Yin-yang que se revesa, com os altos e baixos de uma montanha-russa que termina apenas no momento em que vamos embora. Em qual estrada a alma das duas vai se encontrar? O que lhes dará a liberdade de que tanto precisam? Será que vão finalmente poder voar? Borboletas. Elas se tornam borboletas.

"O mundo era seu abrigo, a música a acompanhava, os anjos a confortavam, as estrelas serviam de cobertor, as nuvens de travesseiro, e a lua a velava. Pensou na morte como recomeço! Nos não encontrávamos mais tempestade, só esperança. Ergueu-se, abanou pro amigo, virou as costas e, em doce gargalhada, sentiu-se borboleta.
Eis a primeira morte de muitas."

É poesia, é amor. É uma avalanche de sentimentos e experiências que recebemos com essa obra. Não tente contar as interpretações que podem ser feitas de cada um dos seus capítulos, de cada uma de suas palavras. Ia ser o mesmo que tentar contar quantos grãos de areia uma praia tem. O que sentirá lendo será diferente do que eu senti, pois é uma conversa com cada um de nós. Você vai pensar sobre si mesmo, sobre a sua liberdade e sobre a vulnerabilidade do seu ser. É como uma dança: se deixe conduzir pelas páginas e suas belas metáforas, e se sentirá embalado pela música e pelos movimentos graciosos.

"Deduziu que todas as palavras de sua vida nunca foram desprovidas de sentimentos! Que nunca encontrou um grito sem resposta! Que o silencio também é um grito! Que todas as vezes que remou contra a maré, a maré a guiava! Que para o erro não existia justificativa, mas que todo erro era proposital a um acerto! Que a saudade doía, mas que pertencia aos bons! Que a noite é bela e profunda, e que o dia brilha para todos! Que todo suicida é louco! Que a vida é curta! Que os poetas interpretam a sabedoria divina!''

5 de maio de 2015

Mar de Rosas (Série Quarteto de Noivas) - Nora Roberts


Emmaline não pode ser culpada por ser a mais (e talvez única) romântica das suas amigas. Tudo bem que ela não é aquela romântica que fica sentada esperando algum milagre aparecer, trazendo seu amor sem mais nem menos. Emma está sempre procurando, sempre de galho em galho. Talvez assim, ela possa um dia ser como os pais, que vivem um mar de rosas.

Este é o segundo volume da série do Quarteto de Noivas, que conta a história das quatro amigas e a chegada de seus próprios romances. Já que é parte do trabalho delas celebrar uma união que nasceu pra ser feliz - talvez não em todos os casos, mas esperamos que sim! - seria bom que elas também tivessem o mesmo. O volume anterior, Álbum de Casamento, foi sobre Mac, a fotógrafa. Você pode ler essa resenha e ter apenas alguns spoilers bem óbvios do primeiro livro, tanto quanto pode ler a série inteira ou só alguns volumes. De certa forma cada um é independente, apesar de acompanharmos o desenrolar das histórias das amigas do anterior de maneira secundária no próximo.

Uma coisa que já percebi é que a Nora gosta de interligar as personalidades, medos, e anseios das personagens com a infância e o exemplo que tiveram na família. Mac tinha medo de relacionamentos por conta de Linda, a mãe totalmente louca e problemática. Já Emma sonha com um final feliz, com um cara que a ame muito e dance com ela ao luar, tudo por causa da bela história de seus pais. E Jack, o tal cara da Emma, tem um problema parecido com o da Mac: não acredita muito na porcentagem de relacionamentos que dão certo.

"Podia até imaginar a cena: o cheiro das rosas de verão, a música vindo das janelas abertas de um salão de baile, a luz que deixava tudo com um contorno prateado, como nos filmes. O modo como seu coração pulsaria (como pulsava agora quando ela visualizava tudo aquilo). Ansiava por dançar ao luar num jardim isolado. Tinha 11 anos."

E então a gente se depara com aquele clichêzinho dos dois amigos que se apaixonam. Esse tipo de romance é sempre muito bonito, mas precisa de um bom fundamento e desenvolvimento. Jack é arquiteto, e fez parte de tudo que a Votos é hoje, planejando os ambientes e reformando a antiga mansão dos Brown. Por isso, é amigo das meninas há mais de dez anos, e é o melhor amigo de Del (irmão da Parks). Com todas essas ligações, é claro que Jack tinha que ser alguém bem íntimo pro nosso Quarteto de Noivas.

"Aquilo a fez rir. Ele sempre conseguia fazê-la rir, pensou. Era uma mensagem bem legal. Interessada, carinhosa, engraçada.
O que mais podia querer?
Tudo, admitiu Emma. Queria tudo."

Eu tive um pouco de dificuldade pra entender de onde nasceu o romance da Emma e do Jack. Pelo que pareceu, ele sempre a considerou incrível, mas não se encaixava no nível Jack. O nível Jack não poderia incluir amigas que amava e tinha medo de magoar. E Emma também o achava ótimo, só que  a centelha só se acendeu de verdade depois daquela noite em que o carro dela não queria funcionar. Eles estavam perto demais, e quanto mais perto estamos de algo, mais é difícil de enxergar os perigos. Naquele momento, eles não conseguiram enxergar nenhum deles. E depois, foi tarde demais.

Colocando  o romance fofo em segundo plano, a linha do livro que trata do dia a dia da Votos foi bem interessante para mim. Vi muitas pessoas criticando o exagero da Nora em descrever detalhadamente as confecções de buquês, o trabalho na Arranjos (parte da Votos da Emma), as flores que Emma escolhia, etc. Discordo totalmente! A descrição detalhada da empresa é totalmente necessária. Nessa série, todas as amigas se ligam pela Votos, e todos os romances de certa forma também. Além desse ponto crucial, se entramos nesse universo dos casamentos, a parte mais interessante vai ser acompanhar como são feitos. Então, pontinhos para a Nora nesse livro por me mostrar bastante da vida profissional de Emma (e até de Jack).

"- Você está pensando em fotos - disse Laurel, secando os olhos. - O que há ali é romance de verdade.
- Não só em fotos. Em momentos. Esse é o momento de Emma. Sua borboleta azul. E provavelmente não deveríamos estar aqui olhando. Se eles nos virem, o encanto vai se quebrar.
- Eles só conseguem ver um ao outro. - Parker pegou a mão de Mac e a de Laurel, e sorriu quando sentiu que a da Sra. Grady tinha pousado em seu ombro."

Foi muito gostosinho de ler. É a mesma linha de Álbum de Casamento, um romance para devorar rapidinho, curtindo as cenas como se estivéssemos assistindo um filme. Você vai se apaixonar pela amizade de Emma, Mac, Laurel, e Parker. E também pela extrema competência que elas tem quando se trata das suas vidas profissionais. O Quarteto de Noivas nos faz sonhar: é uma junção que apesar dos problemas, daria numa vida ótima. Trabalhar com o que ama ganhando bem, pertíssimo das melhores amigas, e não acabar se distanciando delas com uma nova fase, aquela do casamento... Isso seria perfeito!

"Então... Emma não foi buscar o carro?
Mal olhou para Jack.
- Não, a outra que foi. A Srta. Brown. - Tomou um gole de cerveja. - A que diz 'desculpe' com tom de 'foda-se'.
- Essa é a Parker - confirmou Del."

PS: Pra quem gostou de Álbum de Casamento, e de Mac e Carter: não fiquem tristes, eles aparecem bastante por aqui. E inclusive, Laurel, Del, e Parker tem mais destaque, coisa que a gente não viu muito no primeiro livro. Inclusive já dá pra ter uma ideia de quem será o par romântico de cada uma.

23 de abril de 2015

Uma Vida Para Sempre - Simone Taietti (com entrevista!)


Oi pessoal! Hoje vamos de livro nacional. E um muito bom em arrancar lágrimas teimosas. É o Uma Vida Para Sempre, da Simone Taietti, que conta a história de Ethel, uma garota muito especial. E não, ela não é especial por causa da sua doença rara. A CIPA, Insensibilidade Congênita à Dor com Anidrose é realmente difícil de se achar, mas definitivamente, não é por essa condição que podemos interpretar alguém como Ethel. Ironicamente, apesar de sua incapacidade de sentir dores físicas, ela se sensibilizou com toda a dor do mundo, e passou a buscar um sentido para a morte. Mórbido? Pode até ser. Mas esse é um tema que precisa ser mais discutido entre as pessoas, afinal, ela chega para todos nós. 

Dona Edite não gosta de ver a filha em situações perigosas. Ethel já não frequenta mais a escola, e precisa se autoexaminar frequentemente durante todo o dia em busca de cortes, machucados, ou qualquer outra coisa fora do lugar no seu corpo (não sentir dor dá muito trabalho!). E com isso, as chances de uma vida "normal" diminuem drasticamente. Outras crianças estariam chorando por um joelho ralado enquanto Ethel quebrava o braço dormindo, simplesmente por não saber que ele não aguentaria todo esse peso. Ela ama ler Machado de Assis e ouvir Birdy, e tem um cachorro chamado Brás Cubas. Conheceu seus melhores amigos, e aquele quem poderia chamar de amor no hospital. 

Aliás, o hospital era seu lugar preferido. Entre sessões de fisioterapia e exames de rotina, ela via Gertrud e Max. Gertrud era uma senhora idosa muito legal, e Max era um garotinho que perdeu a vida cedo demais. Ethel ainda gostava de frequentar velórios e enterros, e conversar bastante sobre tais coisas com a mãe, no intuito de prepará-la. Afinal, o índice de morte na infância/adolescência da CIPA é bem grande, e Edite já tinha perdido o marido. Quem poderia imaginar a dor de perder uma filha também?

Já a mãe de Ethel tinha uma opinião bem diferente sobre isso. Ela não queria ser preparada para nada, muito menos acreditava que isso fosse possível. Tudo que ela queria é que a filha conseguisse ter uma vida razoavelmente normal, que pensasse em coisas que as meninas da idade dela pensavam, e não em morte, sofrimento e temas pesados. Por isso ela acaba inconscientemente destruindo qualquer chance de Ethel ser normal com sua superproteção. E isso vai gerar muitos problemas entre as duas. Mais uma vez a ironia paira no ar, risonha: tais brigas entre mãe, e filha que quer ser entendida e conseguir sua liberdade é algo de famílias bem comuns.

O lado bom disso tudo, é que a Ethel se reaproxima de uma amiga muito querida que perdeu contato, Catarina. Ethel acreditava que ela tinha mudado, que era uma "promíscua" (Ethel meu amorzinho, qualquer hora dessas vou te aplicar meu discurso feminista, assim você não perde amigas tão maravilhosas por esses pensamentos patriarcais). Um problema pode se formar quando Ethel quer levar Catarina para o seu mundo de morte e dor. Não são todas as pessoas que gostam de ver esses assuntos destrinchados, ou mesmo até com eufemismo. A Catarina é uma boa amiga, mas ela está aqui para deixar Ethel mais leve, para distrair, ou mesmo para oferecer um ombro amigo.

A pessoa que ela realmente destaca no seu coração é Vitor, um paciente de leucemia que conheceu no hospital. O lado bom de ser doente e conhecer alguém no hospital, é que essa pessoa te entende de uma maneira que as outras não conseguem. O lado ruim é que vocês estão doentes, e existe um risco muito grande de não poderem passar muito tempo juntos. Mesmo assim, Vitor é como um divisor de águas para Ethel. Ele é o amor de sua vida, e é aquele que a incentiva a continuar com sua filosofia tão abominada por Edite, e a espalhar ela para as outras pessoas. E isso na verdade é uma forma de ajudar, afinal, quando percebemos que não vamos viver para sempre, somos incentivados a viver melhor... Aproveitar os momentos, aproveitar as pessoas, os dias, os minutos. Ser melhor, ser mais. Essa é a linda mensagem que fica.

E por falar em mensagem, quantas delas temos em Uma Vida Para Sempre! O livro é disposto como o diário de Ethel, que contém em cada início de capítulo dizeres que combinam com o que está por vir. Eles são reflexões informativas, ou trechos de poemas e músicas. Também o meio da história é recheado de belíssimas citações. E por falar em música, eu reuni todas que aparecem durante a história e montei uma playlist. Desculpe, mas vocês sabem que eu amo fazer isso, ainda mais quando aparecem várias das minhas preferidas! (Obrigada Simone, graças a você descobri o Gregory Alan Isakov! Que cara incrível!)

O que podemos aprender com Ethel? O valor de uma vida. Por que as pessoas ficam doentes? Por que elas precisam dizer adeus para aqueles que amam? Por que diabos alguém tem que morrer? Por que alguém tem que envelhecer, ou mesmo nem ter a chance de envelhecer? Isso tudo são coisas para as quais não obtemos respostas concretas. Ethel nos traz os questionamentos e problemas, mas também as soluções. E elas se encaixam numa única coisa: viver! Viver e aproveitar esse espetáculo que é a vida.

Foi um livro que me emocionou muito, principalmente no final. Parabéns Simone! Uma obra com tanta sensibilidade, e com personagens tão palpáveis apesar da sua originalidade... Eu tive que ficar uns dois dias pensando no que tinha acabado de ler. Por o tema doenças e morte estar muito em alta, como aconteceu com os vampiros há um tempo atrás, a gente acaba achando que não vai se surpreender. O bom é quando acontece isso: o livro nos acrescenta muita coisa, em vez de só ganharmos a habitual historinha de um romance em meio ao caos.


PS: A única coisa que senti falta foi a descrição física da Ethel. Eu a imagino com cabelos nos ombros, um pouco ondulados e castanhos. Será que era por aí mesmo? hehehe.

PS²: Espero que gostem da playlist e da entrevista!


1-Simone, você pensa como a Ethel? De onde veio toda a filosofia da morte e acontecimentos históricos sobre ela nos começos de capítulo? Com certeza deve ser um assunto que te interessa, as informações e reflexões sobre ela não foram poucas! Isso veio de alguma experiência direta com a morte, ou algum  outro fato da sua vida que te fez querer saber mais sobre a chegada do demorado adeus da outra Simone, a de Beauvoir?

Eu penso sim como a Ethel. Todas estas divagações que ela faz são minhas também, de certa forma. Sempre tive uma inclinação muito grande para os questionamentos filosóficos e a morte, sendo a maior incógnita da vida, é para mim o assunto mais instigante e perturbador, por assim dizer, para sabermos. Não houve um incidente nem fato marcante na minha vida a respeito da morte que tenha me levado a escrever. Já perdi amigos e parentes muito queridos, mas a busca por tentar compreender a morte vem de muito antes.

2-E sobre as músicas e livros que Ethel e Vitor amam? Você gosta de ouvir as mesmas coisas, ou se baseou em alguma tribo adolescente? Já com os livros acho que pode ter sido diferente, afinal a maioria dos jovens infelizmente não está valorizando a literatura nacional. Se a Ethel teve inspiração em alguém, esse alguém também era uma exceção à regra de monopolizar as leituras e restringi-las apenas aos best-sellers americanos?

Todas as referencias constantes no livro são de meu gosto. Desde Machado de Assis, que é meu autor brasileiro favorito, até as musicas da Birdy, do Mumford & Sons e os seriados, como Grey's Anatomy e Doctor Who. Há muitas obras de boa qualidade na literatura norte-americana, contudo, creio que seja necessário consumirmos e darmos mais valor a nossa literatura, pois temos muitos autores bons, tanto clássicos quanto contemporâneos.

3-Em sua concepção, havia realmente algo de errado com Ethel? Será que é tão estranho ter amigos idosos, ou se aproximar de ambientes e realidades considerados muito pesados para a maioria das pessoas? A que isso se deu? Apenas uma maneira de suprir a falta do pai e entender melhor a doença/morte ou ela era na verdade alguém a frente de seu tempo?

Acredito que tudo começou com essas duvidas acerca da própria morte do pai tendo maior ensejo quando ela entendeu o que representava sua doença. Mas creio que com o passar do tempo os sentimentos de angústia e revolta quanto a morte se transformaram no aprendizado de uma bela lição. Deixar o seu melhor neste mundo e aproveitar ao máximo a companhia daqueles que ama. E frente a forma como a maioria das pessoas vê a morte acredito que Ethel seja sim alguém a frente de seu tempo.

4-Qual foi a sensação de ter o seu livro físico em mãos, pela primeira vez? Quem te incentivou a continuar a história, publicar, e seguir em frente? Por favor, conta pra gente como tudo começou: os motivos que te levaram  a escrever e quando descobriu que era essa a sua paixão (presumo que seja, para fazê-lo com tanto capricho, mas me corrija se eu estiver errada, hehe).

Existem inúmeras palavras na língua portuguesa e, apesar de parecer ironia isto vir de uma escritora, me faltam palavras para expressar tamanha emoção ao ver meu livro prontinho pela primeira vez. Escrever e ser publicada faz parte de um grande sonho que me acompanha desde os meus doze anos. Foi em uma aula de língua portuguesa e literatura que descobri este amor pelas palavras e desde então não parei mais de escrever. Para a realização deste sonho tive o apoio de muitas pessoas do meu círculo mais próximo, entre familiares e amigos que sempre me incentivaram muito. Para a escolha da editora muitas me foram apresentadas por um amigo e professor do meu curso, Luiz Fernando, que também é doutrinador, além dos conselhos de quem já passou algumas vezes por este frenesi de publicar uma obra. A ele e às demais pessoas que citei sou eternamente grata pelo apoio.


“ – Todos gostariam de ser Deus ao menos algumas horas uma vez na vida. Alguns para matar pessoas que não julgam dignas, outros para devolver a vida a alguém. Enquanto os mais peculiares fariam chover queijo.”

“ É engraçado observar os desejos, aquilo que em determinado momento representa a realização. Engraçado mesmo é perceber que o que não tem qualquer valor para alguns, representa simplesmente tudo para outros.”

“O instante modificador. Os segundos que podem mudar seus planos e concepções. A ínfima contagem do tempo que pode mudar sua vida para sempre. Dizem que a vida é feita de momentos e eu acredito nisso. Acredito também em uma espécie de Big Bang, a hora em que todos esses momentos encaminham-se para um só, até porque a vida não passa de uma longa caminhada. O demorado adeus, de Simone de Beauvoir, que acaba por não ser tão demorado para alguns.”

“É por essas e outras que sempre defendo a importância de se olhar as coisas de vários ângulos. Mesmo que um não expresse nada, outro pode te surpreender.”

“(...) É obvio que amadurecemos, mudamos de opinião e evoluímos. Mas acho que muito do que muda é só a superfície. Tem muito da essência que continua ali, e apenas cresce conosco. É que vamos aprendendo coisas e vendo coisas, tomando consciência de outras, o que nos molda. Acredito nessa coisa de que não nascemos seres humanos e, sim, nos tornamo-nos. É a influência do meio, o que nos rodeia, acaricia-nos e nos ataca e o modo como lidamos com isso. E essa coisa da pintura tem muito a ver com a superfície, aquilo que qualquer desatento toma por verdadeiro, mas que, na verdade, não passa de uma casca, como o nosso próprio corpo. (...)”