24 de abril de 2016

Mulheres Que Não Sabem Chorar - Lilian Farias


São quatro mulheres que se amam e uma bela história. Mulheres que Não Sabem Chorar é tanto poesia quanto denúncia de abusos reais que acontecem todos os dias e são velados por um motivo ou por outro; desde estupros a roubos do ser, da identidade. Ser privada do próprio ser e se anular diariamente em prol do que é adequado é uma morte lenta e agonizante, e Lilian Farias, autora de outros livros como O Céu é Logo Ali e Desconectada, recolheu histórias de diversas mulheres de carne e osso Brasil afora com essas marcas do ódio. Elas se tornaram Olga, Marisa, Ana, e Verônica.

Este é um romance de mulheres, sem esteriótipos ou metas para cumprir. Ele só é. Sua linguagem lírica e sensível nos encanta ao apresentar o íntimo das personagens com suas explosões de sentidos e sentimentos. Marisa e Olga, com seus 50 anos, tão diferentes uma da outra, conseguem preencher alguns de seus vazios com o amor que sentem tão intensamente. A primeira, é forte, fria, armada, quem sabe até um pouco cruel. Marisa não desata em lágrimas facilmente, não sabe chorar ou enfraquecer. A meia-idade lhe trouxe o bater de asas dos filhos para longe de si, e essa foi a primeira vez em que ela realmente se sentiu vulnerável. Sua vizinha, Olga, sempre foi para ela motivo de torcer nariz. Uma louca, vagabunda, viciada, ridícula, digna não de pena, mas desprezo. E não foram raras as vezes em que Marisa fez mal à ela, atroz.

Ana tem um pai vil, perverso, doente, e criminoso. É impossível para ela manter contato com alguém tão violento, capaz de praticar as piores atrocidades com mulheres. Além desse problema com seu progenitor, ela ainda sofre com o irmão que está passando seus dias todos no hospital. 
Ana não. Ana passa esses dias na universidade sonhando com Verônica, a perfeita mulher que não poderia ter sem destruir um relacionamento. Além dessas distrações, suas sessões na psicóloga a ajudam a superar um trauma que vem do ódio e da desestruturação que uma criança jamais deveria ter que confrontar: o abuso pelo pai e a agressão contra a mãe. 

O que une essas quatro mulheres no fim? Não a violência da qual uma delas será vítima, mas a vontade de lutar e se reerguer. Olga é gentil, mas está presa ao vício do álcool e  já acostumada a ter seu corpo reivindicado como se não fosse dela em seus momentos mais frágeis. Acostumada.
Ela prometeu para sua filha que foi levada pelo câncer e para si mesma que conseguiria quebrar as barras de sua jaula, que se libertaria. Mas um dia, em uma recaída, ela foi violentada novamente. Desta vez Marisa estava lá para fazer alguma coisa, e a justiça que ela almeja conseguirá com a ajuda de Ana.

Vizinhas há 20 anos, as apaixonadas sempre se odiaram. Mas quando uma mulher sofre, a outra a compreende verdadeiramente, e não tem escolha: precisa ser também mulher e lutar pela libertação de sua semelhante. E cresceu o sentimento, que sempre esteve germinando naqueles corações costurados. Sem espaço para seus habituais preconceitos, distraídas, não conseguiram impedir que contenções e represas caíssem. Marisa lutou por Olga, que lutou para Marisa. Suas almas são antinômicas e seus momentos são atemporais.

Eu disse que Mulheres Que Não Sabem Chorar é mais que um romance homoafetivo e poesia. Vivemos um momento de confusão, em que muitos esquecem da História e da crueldade. Além de levantar com orgulho a bandeira do feminismo, são denunciados aqui atos genocidas da ditadura militar contra todas as mulheres. Sanatórios que faziam a manutenção da rebeldia (liberdade política, sexual e intelectual custavam caro) através da tortura e violência destruíram muitas vidas, famílias, sonhos e mentes. Lilian transformou esses traumas em personagens (o que só aumentou a verossimilhança), e sua denúncia é real. A ditadura é um retrocesso e o pináculo da opressão, mas a violência predomina mesmo em tempos ditos democráticos e pacatos. Uma mulher não consegue andar na rua sem temer o estupro e o assédio. Não consegue deixar de se sentir ansiosa ao estar em algum lugar sozinha com um homem. Mesmo com seus parceiros ainda há o risco da violência quando explode a cólera masculina. Ainda não vivemos o mundo seguro e ideal, e é preciso ter consciência disso, se inteirar na luta.

É possível espremer vários significados da obra. Sororidade. Integração. União. Empoderamento. Mulheres que aprendem a chorar juntas, sem deixar de lutar. Suas lágrimas são força, sua ligação é força, assim como o amor. O amor foi difícil, foi preciso entrega e desconstrução. O quão complexo é o coração humano? Não é simples para uma mulher de 50 anos, criada na tradicionalidade, acostumada com o amor por homens  se ver de repente arrebatada por uma igual, que pouco tempo atrás considerava totalmente inferior. Marisa aprende com Olga a ser alguém melhor enquanto a salva de suas fraquezas.

Cada capítulo possui um nome de flor, e ao final há um dicionário com seu significado vitoriano. Seja em homenagem a Marisa, que tirava alegria das flores, ou a todas as mulheres, que merecem sua beleza e harmonia, foi sensível e belo. O livro é um ótimo tributo à literatura LGBT, que infelizmente carece de visibilidade, credibilidade, e títulos. De 100 romances heteroafetivos, quantos homo temos? E quantos livres de esteriótipos e pudor? Personagens que amam com mais de 50 anos é algo perto de inédito. Para o mundo, parece que o amor é privilégio da juventude. Mas não. O amor deve ser um dádiva da humanidade, sentido independente de idade, gênero, cor, credo. Lilian surpreende por buscar representar o que a sociedade tenta deixar sempre debaixo do tapete, como se não passasse de sujeira. Mulheres Que Não Sabem Chorar cativa por compreender a verdade do cerne. Há muito mais em nós além do externo.

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25 de janeiro de 2016

Sobreviventes do Verão - Guilherme Tauil


Crônica hoje em dia é como animal ameaçado de extinção. Quantos de nós lemos essas histórias engraçadinhas sem ser no jornal (ou até mesmo nele)? Crônica é aquele gênero literário que todo mundo gostava  quando aparecia nos livros de Português, mas preferia os romances fantásticos ao se tratar de suas próprias leituras (isso falando da minha geração, claro). Bem, de fantástica a crônica não tem nada: é fruto da observação do cronista, mais sua imaginação e habilidade, e um pouco de humor. Qualquer história cotidiana pode virar crônica, desde as mais inusitadas, até as mais monótonas. O que vale aqui é a capacidade de contar essas histórias, e como elas ficam interessantes pela ótica do pobre escritor, que roda pela cidade, vive no meio da gente, prospectando o cotidiano humano. Que paciência que ele tem!

Mas veja bem, não é pouca coisa, não. Machado de Assis, Clarice Lispector, Lima Barreto, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, e tantos outros conhecidos por serem cânone literário brasileiro adoravam escrever uma boa crônica, e eram conhecidos por elas também, não só por seus romances/poesias. A ideia da Zepelim, editora novinha, saindo do forno, é publicar crônicas de autores contemporâneos. E isso é maravilhoso.

É justo que o livro de batismo tenha sido o do fundador. Sobreviventes do Verão, de Guilherme Tauil, um taubateano-paulista - ele estudou Letras na USP, foi cronista na Gazeta de Taubaté, tem um acervo virtual enorme sobre Chico Buarque no Youtube, e escreve sobre literatura no Quarta Capa. São 35 crônicas, com os temas mais variados possíveis. Tem uma, por exemplo, sobre alienígena, outra sobre a preciosidade que é ter uma lagartixa de estimação, a palhaçada astronômica que tinham feito com Plutão há um tempo atrás (como assim Sailor Pluto perdeu seu planeta?), quitutes que tem a ousadia de possuir nome e sobrenome (impossível comer um bolo de mandioca pretensioso como o Souza Leão), uma mulher se maquiando, a arte de um trote, o absurdo da goleada alemã, a brilhante carreira teatral dos atrasados do ENEM, e pombos que desconhecem a etiqueta de um bebedouro.

Sobreviventes do Verão é aquele livro traiçoeiro, malandro, enganador: mesmo que seja constituído por várias crônicas pequeninas, o que sugere uma vantagem para os muito atarefados que queiram algo para ler nos cinco minutos do café, ele não tem a decência de te deixar satisfeito só com uma. Minha dica é que você nem pense em ler no ônibus. Vai perder seu ponto, pensando, "dá tempo para mais, eu tenho certeza!". Então, somente se estiver na segurança do seu computador, pode aproveitar, relaxar e ler um trecho do livro.

21 de janeiro de 2016

Combate à Intolerância Religiosa em Ubatuba


Minha cidade tão linda de praias e de florestas, hoje foi linda de pluralidade. Neste 21/01, Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa,  o grupo de afoxé Ilu Omi Obatalá convidou toda a população para um cortejo, que começou na Praça da Matriz, e foi em direção ao Sobradão da Fundart. Branco para todo lado, a energia rítmica, os desejos de paz e igualdade... Conforme o grupo se deslocava, muitos transeuntes resolveram se juntar à marcha. As músicas faziam qualquer um que tivesse corpo balançar - até cachorro! -, inclusive aqueles que assim como eu, desconhecem a palavra "dança" (é coisa de outro mundo, isso?). Cantarolando junto, fomos seguindo, alguns parando para tirar fotos, nessa nossa necessidade moderna de registrar cada momento.

Desde 2007, dia 21 é especial. Após ter o terreiro e casa invadidos, e o marido atacado por grupos de outras religiões, a yalorixá (candomblé) "Mãe Gilda" Gildásia dos Santos morreu de infarte. Mãe Gilda acabou virando mártir desta data que representa todos aqueles que esperam uma maior conscientização brasileira. A maior ironia de tantos crimes de ódio logo no Brasil, é que somos o país mais miscigenado de todos. Isso é algo que já cansamos de ler, mas não internalizamos. Te desafio a ficar surpreso, mas as religiões mais discriminadas são as de matriz africana, quase sempre demonizadas até mesmo em ditos populares (você com certeza já disse um "chuta que é macumba!"), o que reforça ainda mais uma mentalidade racista. Aliás, o preconceito negro e o preconceito afro-religioso andam tão juntos que podemos nos perguntar se veio primeiro o ovo ou a galinha. 

Após as 20 horas, a Praça da Matriz começou a se encher de branco. Saias rodadas, tambores, flores, sorrisos. Além do grupo Ilu Omi Obatalá, haviam membros da umbanda e do espiritismo mesa branca representando. Não sei dizer, entre as pessoas que apareceram, quais eram as religiões. Mas espero que tenham sido das mais variadas possíveis! Eu fui de espírita (kardecista), e não poderia estar mais feliz. Queria ter visto algum membro budista e do islã, mas tenho certeza que eles foram lembrados. 

Chegando no Casarão (ô lugarzinho bonito e cheio de história!) a roda foi formada, e o convite feito: quem quiser entrar e dançar, que não perca tempo! Mães e pais com bebês sorridentes, senhoras, senhores, e jovens, de toda cor/credo/time de futebol/pastel preferido resolveram que seria melhor mesmo não perder tempo e entrar. Depois de várias músicas e falas bonitas celebrando a diversidade, tolerância, e respeito à natureza, todo mundo simplesmente deu a mão para quem tava do lado e ofereceu a melhor energia que tinha para dar. Abraços calorosos e orgulho fecharam a noite. 

Que em nosso país, as coisas sejam como tem de ser: espaço para que possamos ser o que somos, praticar o que amamos, e crer no que escolhemos, sem nunca desrespeitar a liberdade do outro. Já não estamos mais em tempos de infância para a humanidade, não podemos bater o pé e empurrar nosso coleguinha se ele não faz as coisas do jeito que queremos. É preciso que o Brasil cresça e se torne aquele adulto do bem. Viva a pluralidade!

20 de janeiro de 2016

Memórias de Uma Gueixa - Arthur Golden


Foi com muito estudo sobre a história japonesa, e muitas conversas com pessoas especiais que Arthur Golden conseguiu nos dar um quadro maravilhoso sobre este mundo tão fechado das gueixas. Sabe, se você não ler os agradecimentos, ou qualquer sinopse, pode muito bem pensar que o prefácio é real, e que Sayuri realmente existiu. Bem, fiquei triste quando descobri que alguém por quem me afeiçoei desta forma esteve viva apenas no papel, e posso dizer que tanta riqueza de detalhes só pode ser fruto de pesquisa árdua.

É até meio rude dar qualquer informação acerca do que espera por você, mesmo que para despertar seu interesse – ao chegar completamente despreparada, fui surpreendida pelo impacto da mesma dor infligida à menina de 9 anos. Sayuri nem sempre foi Sayuri. Nasceu Sakamoto Chiyo, num pequeno vilarejo pescador chamado Yoroido. Naquele lugar, seus olhos cinza-azulados, herdados da mãe, juntamente com muita água na personalidade, poderiam passar como características completamente prosaicas. Em Kioto, no distrito de Gion, como gueixa, Chiyo alcançaria grande sucesso justamente por causa delas.

Vendidas como escravas por seu pai, Chiyo e Satsu foram separadas, sem saber o que pensar para o futuro. A mãe muito doente estava para morrer, o pai já velho e pesado de tristeza, esperava que chances melhores aparecessem para as duas irmãs. Chiyo foi parar na okiya Niita, a princípio para ser uma simples criada. Já Satsu, teve um destino muito pior: foi deixada para um prostíbulo.

Adendo: Sim, pois ao contrário da crença popular ocidental, gueixas não são um equivalente para prostitutas. Gueixas são como artistas, treinadas para entreter homens importantes nas casas de chá e festas sociais. Tanto que na própria etimologia, a tradução mais literal de gueixa seria "artista", ou "artesã", já que é composta pelos kanji gei (arte) e sha (pessoa ou praticante). Uma gueixa pode também ter um danna, uma espécie de benfeitor, patrono. Com esse sim ela mantém relações afetivas e sexuais por um período de tempo, ou por uma vida inteira (depende do tipo de acordo feito). Seu danna cuida de boa parte de seus gastos, lhe dá presentes, quimonos, e é o mais próximo de uma relação amorosa que uma gueixa pode ter (não é permitido a elas se casar ou mesmo namorar).

É de se esperar que tempos assim tenham sido, para uma criança órfã, completamente sem cor. Ter de trabalhar até muito depois da fadiga, sem receber carinho algum, ou explicações, amadurece alguém de uma maneira cruel. Apesar de todo esse sofrimento, a grande quantidade de água na personalidade de Chiyo a fez superar tudo, mantendo a doçura no fim. Ao converter suas dificuldades em sucesso, ela olha para trás com orgulho e nostalgia, e não com amargor e arrependimento.

Seu primeiro obstáculo é a ignorância. Sem saber nada sobre o universo das gueixas, ou mesmo do lugar onde se meteu, ela passa por maus bocados. Chiyo fica deslumbrada com absolutamente tudo que vê (imagine quanta beleza tinha na pobre Yoroido), e não entende a dinâmica de Kioto. Ambientes, quimonos, pessoas... Tudo era motivo para se maravilhar.

Golden nos mostra nos mínimos detalhes como é a vida na okiya Niita, uma estrutura que poderia ser parecida com a familiar, se fosse baseada em amor e não em interesse. Chiyo deve respeito à Mamãe, Vovó, e Titia, e mesmo assim precisa pagar suas dívidas, e por dívidas, entenda que ela deve ressarcir a quantia pela qual a compraram de seu pai, seus estudos de gueixa (caríssimos), e até mesmo pagar por injustiças dos planos de Hatsumomo, uma cobra ardilosa motivada a destruir a carreira da menina antes mesmo que comece.

Falemos de Hatsumomo, rival de Mameha, e estrela da okiya Niita. Considerada uma beldade, era muito popular, total sucesso como gueixa. No momento em que Chiyo colocou seus pés na entrada, ela a desprezou. Não esperou nem pela volta da noitada, ou mesmo pelas fagulhas nas costas (é mau agouro uma gueixa sair para trabalhar sem que soltem-lhe fagulhas às costas) para começar a tratá-la mal. Hatsumomo morria de medo de ser ofuscada.

Por conta das suas tramoias, Chiyo perdeu o direito as aulas, e teria como destino ser apenas uma criada pelo resto da vida. Não que ela quisesse ser uma gueixa, mas era a melhor esperança que tinha naquele lugar. Limpar o chão que Hatsumomo pisa por todos os dias de sua vida depois de tudo que aconteceu é o pior que poderia imaginar. Até que um dia, cumprindo uma tarefa nas ruas de Gion, ela esbarra com um homem. A primeira pessoa a demonstrar bondade real a ela desde então. Era presidente de alguma empresa, e a olhou como se pudesse entender tudo que se passava. Lhe deu um lenço para secar as lágrimas e dinheiro para uma raspadinha. Ela nunca perdeu o lenço, e sempre o carregou dentro do quimono para onde ia. O resultado desse encontro foi um banho de determinação. A pequena Chiyo tinha agora um objetivo, e não ia descansar até conseguir. De alguma forma, ela se tornaria uma pessoa adequada para entreter o Presidente, e obter seu afeto no futuro.

Se não fosse por Mameha, que tomou Chiyo como irmã mais nova (onee-san), ela jamais se tornaria gueixa. Mameha era muito popular e benquista, e aceitou auxiliá-la financeiramente por um tempo, ensiná-la tudo que sabia, guiando-a ao sucesso. A irmã mais velha de uma gueixa, paralelamente à escola, a ensina tudo que precisa para sua carreira. Enquanto a escola ensina danças, canto, e a tocar diversos instrumentos além do shamisen, a irmã mais velha ensina como se portar em uma casa de chá, como estabelecer as relações e os contatos, como conversar e entreter, como se maquiar e usar os quimonos. Além disso, a irmã mais velha ainda leva a maiko, geixa aprendiz, junto com ela em suas festas neste período, para que ela possa aprender observando também. Para que a onee-san seja bem sucedida, a irmã mais velha deve apresentá-la bem às pessoas certas. É uma introdução numa sociedade muito tradicional. O objetivo de Mameha com tudo isso, era, segundo Chiyo pensava, derrubar Hatsumomo. E de fato, ela o fez.

Esses e outros detalhes interessantes sobre a vida de Sayuri estão presentes em Memórias de Uma Gueixa. Como por exemplo, a escolha do nome. Geralmente, o nome de gueixa (que substitui o primeiro nome da moça) é constituído com uma parte do nome da sua irmã mais velha. Sayuri deveria ter algo de Mameha, mas segundo um adivinho, nenhuma das combinações seria de bom agouro. Não se esqueça: as gueixas são muito supersticiosas, e não dão um passo para fora de casa sem consultar seu almanaque de horóscopo.

Vemos por toda a sua vida a evolução. Sayuri foi como o bambu que se curva ao vento para não quebrar, e que passada a tempestade, está em pé novamente, pronto para continuar crescendo. Desde a vila dos pescadores até a vida adulta nos Estados Unidos, mudou muito e se tornou uma grande mulher, gueixa conhecida mundialmente. Você conhecerá os mais altos aristocratas japoneses e seus hábitos, os efeitos da Segunda Guerra no Japão, e a vida destas mulheres que apesar de se divertirem bastante, nunca são realmente livres para decidirem suas vidas (ao menos, na obra de Golden).

Com uma narrativa incrível, cheia de referências à cultura japonesa, eu já disse: parece até mesmo ser um relato real. Sayuri é uma ótima contadora de histórias, mas devemos diferenciar bem de Mineko Iwasaki, a inspiração de Golden. Apesar de apreciarmos a obra ficcional, Mineko, a mais famosa gueixa do mundo, escreveu um livro contando sua real história. Ela diz que muitas coisas estão erradas, e mesmo cientes da liberdade do autor em sua ficção, isso ajudou, segundo ela, a continuar perpetuando alguns conceitos errados sobre a sexualidade e a a submissão das gueixas. Mineko diz que o mizuage, por exemplo, quando uma gueixa tem sua primeira relação sexual, não é como um leilão (da forma que Golden retratou), e que entreter homens não é sinônimo de sexo. Além disso, ela ainda diz que uma okiya respeita muito mais as gueixas do que na história de Sayuri, já que elas são seu futuro e fonte de sobrevivência; e que depois de geralmente 5 anos trabalhando, elas são livres para continuar na profissão ou não, se mudarem para onde quiserem, etc. Mineko também esclarece que nenhum homem tem permissão para tocar na gueixa sem consentimento, e que elas não são submissas desse jeito.

Uma maravilhosa obra ficcional, que nos acrescenta muito. Aprendi sim várias coisas com Golden, mas é preciso após a leitura, pesquisar para descobrir quais aspectos são reais e quais foram sensacionalismo. Recomendo a leitura de ambos os livros: Memórias de Uma Gueixa, e Minha Vida Como Gueixa (autobiografia), de Mineko Iwasaki. Em um, você ganhará uma história extraordinária e emocionante. No outro, algo mais real e completo em termos de cultura. Vão se complementar perfeitamente.


Citações 

"Uma árvore pode parecer bela como sempre, mas quando a gente nota os insetos que as infestam, e as pontas dos ramos estão marrons de doença, até o tronco parece perder algo de sua imponência."

" É por isso que sonhos podem ser coisas perigosas: queimam como fogo, e às vezes nos consomem completamente."

"– Natsu, esposa de Sakamoto Minoru. Sakamoto Minoru era o nome de meu pai. – Morreu aos 24 anos, no décimo nono ano de Meiji. Depois apontou a outra lápide: – Jinichiro, filho de Sakamoto Minoru, morreu aos 6 anos, no décimo nono ano de Meiji. E depois apontou para a lápide seguinte, idêntica exceto pelo nome, Masao, e a idade, que era de 3 anos. Levei algum tempo para compreender que meu pai fora casado antes, havia muito tempo, e que toda a sua família tinha morrido. Voltei àquelas sepulturas pouco depois e, parada ali, descobri que a tristeza era uma coisa muito pesada. Meu corpo pesava o dobro que no momento anterior, como se aquelas tumbas me puxassem para baixo, para junto delas."

"Em Yoroido, nossa pequena aldeia de pescadores, eu morava no que chamava de “casa bêbada”. Ficava perto de um penhasco onde o vento soprava o tempo todo do oceano. Em criança eu achava que o oceano tinha um resfriado terrível, porque estava sempre chiando, e em certos acessos soltava um espirro enorme – o que significa uma lufada de vento com respingos tremendos. Decidi que nossa casa minúscula devia ter se ofendido com o oceano espirrando na sua cara de tempos em tempos e que se inclinara para trás para esquivar-se disso. Provavelmente teria desmoronado se meu pai não tivesse cortado madeira de um barco de pesca naufragado para escorar os beirais, o que fazia a casa parecer um velho embriagado que se amparava numa bengala."

" Quando menina eu acreditava que minha vida nunca teria sido difícil se o Sr. Tanaka não tivesse nos arrancado de minha casinha bêbada. Mas agora sei que nosso mundo não é mais permanente do que uma onda subindo no oceano. Quaisquer que sejam as nossas lutas e triunfos, qualquer que seja o modo como os experimentamos, em breve todos fundem-se numa coisa só, como a tinta aguada de uma aquarela num papel."

Recomendo ainda, o filme adaptado da obra de Golden. Fiel ao livro, uma belíssima produção, e cenas para nunca esquecer. Ganhou Oscar em "Melhor Fotograria", "Melhor Direção de Arte" e "Melhor Figurino",  e Globo de Ouro na trilha sonora e atuação de Zhang Ziyi. Você pode ver o trailer do filme e ler um trecho do livro.

14 de janeiro de 2016

O cordel de Dandara


Você há de concordar que literatura de cordel é realmente um encanto. Das inúmeras maravilhas nordestinas, com certeza a cultura é uma das mais ricas e únicas. Dando vida a esse importante gênero literário que não entra nos best-sellers, com uma importante personagem que não entra nos livros de História, Jarid Arraes faz mais do que um bom trabalho.

A beleza e simpatia daqueles varais cheios de cordéis coloridos, nos conquistam com sua variedade de temas. Os cancioneiros nordestinos vão desde histórias do cangaço até política, humor, e aventuras eróticas. São abordados também temas éticos e sociais, biografias, pelejas, romances, e religiosidade. Nascida em Juazeiro do Norte, Ceará, Jarid resolveu usar dos seus cordéis para discutir questões de gênero, xenofobia, e principalmente: visibilidade negra.

Há não muito tempo atrás, Dandara dos Palmares lutava pelo fim da escravidão e por uma melhor condição de vida para os negros escravos e quilombolas, mantendo sua resistência em Palmares. Liderava com Zumbi, e apesar de participar das atividades de colheita, caça, e manutenção doméstica como todos, lutava capoeira, pegava em armas, e ficava à frente nos batalhões de negras que defendiam aquela enorme comunidade na Serra da Barriga. Lutou ao lado de homens e mulheres por diversas vezes. Eram tempos conturbados e difíceis, aqueles. Apesar de ter sido uma figura tão importante quanto Zumbi, o único relatado nos livros de História é seu companheiro. As informações sobre Dandara são tão escassas que nem mesmo se sabe onde ela nasceu (temos uma ideia de que seja no Brasil, apenas levando em consideração relatos). O que isso significa? Quando a data da Consciência Negra – mais conhecida como festival da hipocrisia – se aproxima, em todas as escolas ouvimos sobre a brilhante e heroica vida de Zumbi. Mas e Dandara, você sabe quem foi?


Os fatos registrados pela História são uma boa maneira de analisar a humanidade no presente através do passado. Mas talvez, aqueles fatos que não foram incluídos na grande linha do tempo sejam ainda mais reveladores. Se por ventura o registro de Dandara e tantas outras mulheres importantes não foi considerado interessante, podemos e devemos todos nos perguntar o porquê. Seria perigoso retratar um modelo feminino que lutasse, que fosse independente, altivo, relevante, e não branco? Com certeza. Bem, nada para se surpreender. É preciso uma série de calculismo frio e cruel para manter um sistema que domina e prejudica metade da população de pé.


Agora falemos de coisas boas! Voltando para as graças dos tempos atuais, temos mulheres incríveis dispostas a nos deixar verdadeiros presentes em forma de literatura, arte, música... Francamente, até mesmo o presente de abrir nossos olhos já é uma grande coisa. Além do cordel sobre Dandara, Jarid ainda lançou um livro sobre a guerreira, As Lendas de Dandara, com ilustrações da Aline Valek – Eu sou aquela fã sonsa de Aline que foi à FLIP ano passado para vê-la de pertinho, mas nem chegou a dar um oi. Acompanho a newsletter Bobagens Imperdíveis e fico mais encantada a cada edição. Anyway, o debate da Rocco sobre mulheres na ficção conduzido por ela e mais duas moças incríveis foi eletrizante! –. Inclusive, deem uma olhada na página do livro. Está lindo, de verdade. Tem versão física e virtual!


Só que Jarid não parou com Dandara. Lançou mais cordéis biográficos (Antonieta de Barros, Aqualtune, Luisa Mahin, Tereza de Benguela, e Zeferina são algumas das personalidades), e cordéis infantis/adultos sobre questões raciais, de gênero e representatividade negra. Também lançou cordel LGBT e cordel que trata de xenofobia. Parem já de discriminar o nordeste!

Agora vamos falar de coisas melhores ainda: Algumas escolas brasileiras  já organizaram atividades com os cordéis de Jarid, incentivando desde cedo a problematização de temas importantes, e o conhecimento das histórias esquecidas. Se você é educador ou educadora, e gostaria de participar da construção da empatia, e solidariedade em seus alunos, futuros cidadãos, neste link tem maiores informações. Ou se quiser encomendar seu próprio cordel, contando a sua história, segue aquele link também.

Ainda vou ter meu varalzinho, podem acreditar. Tem coisa melhor para embelezar, divertir, e esclarecer?